Maya Angelou



Por Bruna Vasques*

    É difícil escrever sobre uma pessoa, artista e ativista tão grandiosa como Maya Angelou. É com muita humildade que traço as linhas seguintes com a consciência de que não conseguirei retratar a sua importância que é imensa demais para um simples artigo. Mas antes preciso fazer algumas colocações.

    Os movimentos que aconteceram desde 25 maio desse ano, depois do cruel assassinato do homem negro George Floyd por um policial branco em Minneapolis (EUA), abriram um novo capítulo na história da luta antirracista. Tais movimentos foram capazes de chamar a atenção para o fato de que as pessoas não-brancas são física e simbolicamente assassinadas. Esse assassinato simbólico, ou seja, a negação e o apagamento das produções intelectuais, artísticas, culturas, narrativas plurais das pessoas não-brancas é chamado de epistemicídio pela filósofa negra brasileira Sueli Carneiro. O epistemícidio é outra faceta do racismo estrutural.

    Eu não conhecia o termo epistemicídio antes dos movimentos antirracistas que aconteceram nos Estados Unidos e no Brasil. E me dei conta de que eu estava em falta como cientista social e como ser humano porque não sabia suficientemente sobre o racismo e também não conhecia muitas referências importantíssimas na luta antirracista como a própria Sueli Carneiro. Fiquei com vergonha de mim mesma. E agora estou em uma busca de compreender a dimensão daquilo que tem sido denunciado com mais força desde o dia 25 de maio. 

    É importante destacar que os movimentos recentes tiveram a força de espalhar a mensagem da importância da luta antirracista pelo mundo. Mas o antirracismo sempre esteve presente. Antes mesmo que tivesse esse nome. Esteve presente nas revoltas que aconteceram no Brasil desde a colônia e em outros lugares do mundo. Em Palmares, na Revolta dos Malês, na Revolução Haitiana. Essa última é exemplo de epistemicídio. Como cientista social, eu sabia muito a respeito da Revolução Francesa, da Revolução Americana. Que sabia eu acerca da Revolução Haitiana em que as pessoas escravizadas tomaram o poder no Haiti? Agora sei que isso aconteceu, mas ainda não sei o suficiente. Acredito eu que não sei o suficiente sobre muita coisa, a maioria delas. Mas sei menos ainda sobre a história e a imensa contribuição das pessoas não-brancas para a humanidade.

    Não digo isso necessariamente para me justificar ou pedir desculpas pela minha falta de conhecimento. É para contribuir de alguma forma para a compreensão de que o racismo é o cerne das relações sociais de países racializados como o Brasil, mas que também ele se infiltra nas nossas mentes e constrói um imaginário social equivocado sobre as pessoas não-brancas. Em outras palavras, nós não damos o devido reconhecimento e valor às contribuições de pessoas não-brancas. Como já nascemos em uma sociedade em que o racismo é a norma e não a exceção (como nos ensina Sílvio Almeida, outro pensador que vim a conhecer muito recentemente) nós somos racistas e elegemos o branco como a referência. Não é por má-fé, maldade ou coisa que o valha. É porque regra é essa. Esse momento é emblemático por denunciar o genocídio das pessoas negras e o apagamento e silenciamento em uma ideologia necessariamente racista. 

    Muito recentemente também é que fui entender a frase de Angela Davis “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Parece tão óbvio, mas não é. O antirracismo é uma postura ativa, é preciso esforço para ser antirracista. É ir atrás de referências negras, é preciso buscar compreender o racismo, suas origens, suas especificidades, suas consequências. É uma busca que só terá fim quando se destruírem as estruturas que legitimam o racismo, que fazem dele a regra.

    Eu trago Maya Angelou porque acho que ela é emblemática dessa configuração racista. Maya Angelou é muito mais significativa do que várias figuras brancas e talvez seja muito menos celebrada do que as mesmas. Digo talvez porque, aparentemente, isto está mudando em virtude de tudo isso que foi dito anteriormente: os movimentos antirracistas recentes têm servido para mostrar a enorme contribuição das pessoas negras nos mais diversos âmbitos, incluindo as artes. E é nesse âmbito que Maya foi tão importante e sempre será.

    Maya foi bailarina, cineasta, cantora, atriz, poetisa. Militante pelos direitos civis ao lado de Matin Luther King e Malcolm X. Escreveu até o fim de sua vida em 2014, quando ela tinha 84 anos. Maya Angelou nasceu em 1930 no sul dos Estados Unidos, ou seja, em um período em que ainda havia segregação racial legal nos Estados Unidos. A sua incrível memória faz com que ela revisite os acontecimentos de sua infância e adolescência em suas várias autobiografias, sendo Eu sei porque o pássaro canta na gaiola, autobiografia dos seus primeiros anos de vida, a mais lida e celebrada, recorde de vendas na atualidade. Inevitavelmente, o racismo faz parte de sua narrativa. Mas não só. Porque a história de uma pessoa negra não se resume às dificuldades decorrentes do racismo. Maya Angelou é prova disso.

    A história dela também é a história da menina que passou a ser chamada de Maya porque seu irmão mais novo não conseguia dizer “My sister”. O nome de nascimento de Maya é Marguerite. É a história do amor incondicional que ela tinha pelo seu irmão. É a história do ataque de riso que ela e seu irmão tiveram na igreja diante de uma enorme confusão entre uma crente e o pastor. Também a história do castigo físico que seu tio deu nos dois depois dessa cena. É também a história de quando Maya teve uma horrível dor de dente e precisou ir ao dentista branco que recusou atendê-la. Maya, na sua incrível imaginação recriou essa passagem de sua vida, escreveu sua própria versão, sua própria narrativa em que Momma, a sua avó, tem o papel principal:

Momma entrou naquela sala como se fosse autoridade. Empurrou aquela enfermeira boba para o lado com uma das mãos e entrou no consultório do dentista.

Ele estava sentado na cadeira, afiando os instrumentos do mal e colocando um ardor adicional no remédio. Os olhos de Momma brilhavam como carvões em brasa, e os braços tinham o dobro do comprimento. Ele olhou para ela na hora que ela o segurou pela gola do jaleco branco.

“Se levante quando vir uma dama, seu canalha desdenhoso.” Sua língua estava mais fina, e as palavras saíam bem pronunciadas. Enunciadas e afiadas, como pequenos estrondos de trovão.

O dentista não teve escolha além de se levantar e ficar em posição de sentido.

Ele baixou a cabeça depois de um minuto, e sua voz soou humilde. “Sim, senhora, Sra. Henderson.”

“Seu patife, você acha que agiu como cavalheiro falando comigo daquele jeito na frente da munha neta?”. Ela não o sacudiu, apesar de ter força para isso. Só o segurou ereto.

“Não, senhora, sra. Henderson.”

Não, senhora, sra. Henderson, o quê?” E ela deu uma sacudida de leve, mas por causa da força, o gesto fez a cabeça e os braços dele tremerem nas extremidades do corpo.

Ele gaguejou bem mais do que tio Willie. “Não, senhora, sra. Henderson, me desculpe”.

Deixando transparecer apenas um pouco de repugnância, Momma o jogou de volta na cadeira de dentista. “Lamentar não adianta muito, e você é o dentista mais lamentável em que já botei os olhos.” (Ela podia escorregar nas frases porque tinha um controle tão eloquente da língua.)

“Eu não pedi que você peça desculpas na frente de Marguerite porque não quero que ela conheça meu poder, mas estou dando uma ordem a partir de agora. Vá embora de Stamps até o pôr do sol.”

“Sra. Henderson, não tenho como pegar meu equipamento….” Ele estava tremendo horrivelmente agora.

“Isso me leva à minha segunda ordem. Você não vai atuar como dentista nunca mais. Nunca! Quando estiver acomodado na próxima cidade, você vai ser um vegetariano que cuida de cachorros com sarna, de gatos com cólera e de vacas com epizootia. Está claro?”

Havia saliva escorrendo pelo queixo dele, e seus olhos se encheram de lágrimas. “Sim, senhora. Obrigado por não me matar. Obrigado, sra. Henderson.”

Momma deixou de ter dois metros de altura e braços de dois metros e disse: “De nada por nada, seu pulha, eu não perderia tempo matando um ser inferior como você”.

Na saída, ela balançou o lencinho para a enfermeira e a transformou em um saco cinza de ração de galinha. (p. 222-223).

    Maya Angelou não apenas escreveu sua história, suas muitas histórias, mas as reescreveu. E também ajudou a reescrever as histórias no mundo. No plural porque não há uma história única. É o que nos ensina a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie:


    Eu não sei muito bem como terminar esse artigo, confesso. Talvez porque não seja o caso de concluir, mas assumir que há muito a ser feito ainda. Ouvir e buscar e compreender são os primeiros passos. É isso que estou procurando fazer e espero poder ajudar quem chegou até aqui.

    Para finalizar, quero divulgar dois portais que têm me auxiliado a refletir sobre o racismo estrutural e a trajetória das pessoas negras na luta antirracista:

    O Alma Preta que se dedica a um jornalismo preto e livre:https://www.almapreta.com/

    Nele, indico artigo de Pedro Borges sobre a questão do epistemicídio:https://www.almapreta.com/editorias/realidade/epistemicidio-a-morte-comeca-antes-do-tiro

    O Portal Geledés: https://www.geledes.org.br/. O Geledés é um instituto que tem como fundadora a citada filósofa Sueli Carneiro e é voltado para a mulher negra. Nele, há artigo sobre Maya Angelou: https://www.geledes.org.br/maya-angelou-ainda-assim-eu-me-levanto/.

    Também tive como fonte para a elaboração deste artigo matéria de Alberto López sobre Maya Angelou para o jornal El País que você pode acessar aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/04/cultura/1522818455_771877.html.


    E a grande referência deste artigo é, obviamente, Maya Angelou. Aqui foi citado o livro Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Tradução de Regina Winarski – Bauru, SP: Astral Cultural, 2018.






Bruna Vasques é cientista social e pedagoga. Gosta de drag music heavy metal. De documentário à série adolescente. Anda aproveitando o isolamento para ler as dives da teoria social.


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