A representatividade na nova versão de She-Ra
Imagine como não seria a nossa visão (como sociedade) se a gente crescesse assistindo desenhos com personagens fora da norma heterossexual cisgênero branco. Personagens lésbicas, gays, não-binários, mulheres “não femininas” ou fora do padrão estético alto, esbelto e malhado. Desenho para crianças e também para adultos. A cartunista Noelle Stevenson conseguiu trazer as minorias para o reboot de She-Ra e as Princesas do Poder de um jeito que não subestima nem o público adulto nem o infantil.
Vamos começar pela questão estética. As princesas do desenho original tinham praticamente o mesmo tipo físico, todas magérrimas e altas. Saca o look da galera aí embaixo. E olha o tanquinho do Arqueiro, único personagem masculino aí da imagem:
Na versão de Stevenson a estética dos personagens mudou muito e para melhor! Personagens ficaram mais baixos, mais gordos, diferentes uns dos outros quanto à estética. A transformação do personagem Arqueiro é uma das mais marcantes:
Pois é, agora o Arqueiro é negro! Mas, não é somente ele, existem outros personagens negros como os pais dele e a soldado da Horda, Loonie.
De mulherão, a Gélida foi transformada por Stevenson em uma menina:
Olha a diferença entre a Cintilante original e a Cintilante de Stevenson:
As diferenças de estética não são apenas com relação ao físico dos personagens. Por exemplo, para ir ao baile de gala das princesas a personagem Catra vestiu esse terninho genderfuck que eu amei:
E também existem outros personagens maravilhosos como a Huntara (uma das minhas personagens preferidas), Scorpia (outra que eu amo) e Double Trouble primeiro personagem não- binário em desenho animado EVER!
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| Double Trouble: non-binary realness |
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| Huntara butch queen |
A mudança no físico dos personagens é só um pequeno feito no reboot de Stevenson: são as relações o grande diferencial do desenho. Se a gente se choca quando vemos um casal homossexual em um desenho (e eu fiquei de queixo caído) é porque é algo totalmente novo nesse universo e é porque ainda não vemos a homossexualidade com naturalidade. Além disso, é necessário que haja personagens masculinos como o Arqueiro do reboot que é guerreiro sem ser machão, é corajoso sem deixar de ser doce com as suas amigas. E que haja até uma provocação com relação à masculinidade que se vê no Falcão do Mar que fica dando uma de aventureiro mas morre de medo da vingança daqueles que tiveram seus barcos incendiados por ele (ele incendiava barcos SOMENTE para chamar a atenção).
E há um elemento de sororidade entre as princesas. Também elas brigam, viram a cara, se afastam, fazem as pazes. Mas quando o mundo de Etéria está em perigo, elas unem forças e batalham. De verdade, elas entram na briga e há várias cenas de lutas muito boas. Na nova versão de She-Ra nenhuma princesa espera ser salva pelo príncipe. Na real, elas querem salvar todo mundo de um inimigo em comum, uma força autoritária e ditatorial que pretende justamente submeter, padronizar todo mundo, acabar com a diversidade em Etéria, fazer uma lavagem cerebral para que não haja mais pensamento crítico ou opositor.
Pode parecer muito bobo ou ser “apenas um desenho”. Só que a importância do reboot de She-Ra e as Princesas do Poder está em justamente trazer a representatividade daquilo que está fora da norma para o mundo do desenho animado. O que essa mana fez não é pouco, não.
Você pode até achar que a representatividade não é importante. Só que talvez você ache isso por já ser representando, por se enxergar nas artes, nos meios de comunicação e na mídia. E talvez você venha a desqualificar um trabalho por ser veiculado pela grande corporação Netflix por ser uma empresa capitalista. É algo a ser levado em consideração. Mas na complexidade em que vivemos é preciso levar adiante certas discussões.
Vamos refletir um pouco mais profundamente a questão da representatividade. Há não muito tempo não havia pessoas LGBTQIA+ nas artes em geral enquanto a mulher era (e é) objetificada e as pessoas negras estereotipadas. Até imagino que haverá reações contrárias ao reboot de She-Ra utilizando todos os argumentos reacionários possíveis. Mas é preciso pensar o motivo dessa ausência ou dessa estereotipificação e não precisa ser nenhum gênio para concluir que essas pessoas eram estigmatizadas, vistas como anormais, pervertidas, inferiores e incapazes. Em maior ou menor grau e de maneiras diferentes mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTQIA+ sofreram um processo histórico e social de silenciamento na sociedade e nas artes.
E se hoje em dia as coisas estão um pouco diferentes (e ainda muito longe do ideal!) é porque os movimentos sociais trazem essas pautas para a ordem do dia reivindicando o seu direito de existir. Com muita luta que as pessoas vão ganhando esses espaços, nada é dado de presente para as minorias.
Não sou ingênua de acreditar que a representatividade vai mudar as condições de vida das mulheres, das pessoas LGBTQIA+ e das pessoas negras. Está equivocado quem pensa que a luta das minorias é somente uma luta por representatividade. Mas a representatividade nos mais diversos âmbitos, não somente no artístico, é capaz de transformar o imaginário social sobre aquilo que está ali sendo representado. Claro que não é sem conflito, sem reação, de maneira imediata nem mesmo cronológica. Mas é importante e fundamental.
Noelle Stevenson não criou apenas um desenho animado bobo: protagonizou um ato de coragem.
Todos os episódios de She-Ra e as Princesas do Poder estão disponíveis na Netflix.
Bruna Vasques é cientista social e pedagoga. Gosta de drag music a heavy metal. De documentário à série adolescente. Anda aproveitando o isolamento para ler as dives da teoria social.











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