LEITURA E INTERNET: UMA REFLEXÃO
Por Bruna Vasquez*
Este é um meta-artigo. Não sei se a denominação existe, mas vou usar o termo porque estou usando a linguagem escrita, que depois se transformará em um artigo on line, para falar justamente da relação entre leitura e internet. Mas, por enquanto estou aqui no editor de texto porque, veja, a escrita, assim como a leitura, é um processo complexo. Ou, pelo menos, deveria ser em alguns momentos.
Antes de escrever um texto, eu penso em várias referências, ou seja, eu aciono o meu conhecimento prévio sobre a questão, conhecimento tácito, vivências e referências. Depois vou atrás do que poderia adicionar a isso para escrever algo que seja relevante ou, no mínimo interessante. Para mim, particularmente, é organizar as ideias em um todo coeso que me tenha significado e que possa ter significado para outras pessoas. Ao fazê-lo, ganho muito em termos de raciocínio e, desconfio que, se fizesse um vídeo, não teria os mesmos ganhos, embora, como professora, acredite muito na comunicação oral. Com a leitura concentrada acontece algo semelhante, a nossa mente sofre uma perturbação que é extremamente boa. A pergunta aqui é: a internet contribui ou prejudica a nossa habilidade de ler?
Por que este tema me veio à cabeça? Como cientista social, o comportamento das pessoas na internet me deixa muito intrigada, quando não incomodada. A gente sabe que a internet é problemática e possui muitos truques, muitos mesmo. Me preocupa que, talvez, estejamos nos curvando a essas dinâmicas sem nos darmos conta. Para além das fake news e da disseminação de discursos de ódio extremamente preocupantes, a questão que eu quero levantar é se nós (e quando digo “nós” me refiro também a mim) estamos realmente conscientes do nosso uso, se estamos fazendo realmente escolhas. É interessante notar, por exemplo, que uma pessoa que posta uma foto, sobretudo de si mesma, receba muitos mais likes do que uma pessoa que posta um texto. Sim, isso me preocupa pessoalmente, não vou negar, porque entrei em uma empreitada de desenvolver conteúdos escritos para a internet. Chego à conclusão de que não a internet como um todo, mas a rede social não é lugar de texto escrito, é lugar de imagem e vídeo. Qual o problema? Ora, a princípio nenhum.
A princípio não há problema nenhum, mas se analisarmos mais de perto, o uso da rede social vai, aos poucos, condicionando o nosso uso da internet como um todo, se não ficarmos atentos ao nosso comportamento nas redes. Vou exemplificar aqui com a televisão aberta, que é até uma coisa que está meio acabada, mas se pensarmos no mundo anterior à internet, ela era dominante. Pois bem, o que acontece com as crianças que ficam muito expostas à televisão? Não estou nem falando do conteúdo programático, mas é importante destacar de passagem que a televisão pode aumentar o estresse infantil ou até mesmo alterar a sua dieta. Estou falando de concentração: a criança que fica exposta à televisão consegue se concentrar por um espaço muito limitado de tempo por causa do esquema da televisão aberta – bloco – comercial – bloco – que condiciona o cérebro a isso. Mas, o que isso tem a ver com internet, leitura e tudo o mais? Ora, vamos olhar para nós mesmos (eu sempre inclusa).
Vale fazer uma quebra aqui para ressaltar algumas coisas: não estou falando de absolutamente todas as pessoas, ou melhor, não estou me referindo a um indivíduo ou outro, estou apenas levantando hipóteses com o objetivo de suscitar uma reflexão a quem vier a ler esse texto. Não sou dona de verdade e não estou acima dos comportamentos aqui relatados. Falarei mais sobre isso adiante.
Voltemos a falar sobre o condicionamento: você já reparou que, com a explosão dos seriados, nós podemos ter uma dificuldade maior em assistir filmes, particularmente os filmes longos? Eu lembro que uma vez falei a um amigo sobre um seriado de que eu gosto muito e que os episódios têm 1h30 e ele disse que eram longos demais. Estou julgando meu amigo? Claro que não já que eu também, como consumidora desenfreada de séries, tenho dificuldades em assistir coisas longas demais porque eu, voluntariamente (porque não posso dizer que fui obrigada – risos), condicionei o meu cérebro desse jeito. Muito ruim para mim, mas deve ser para outras pessoas também.
Quanto às redes sociais, vejamos: eu desconfio que não deve ser somente eu que fica rolando as redes sociais num fluxo contínuo e que, quando algo chama a minha atenção, esse algo é um vídeo ou uma foto. Não sou diferente de ninguém nesse ponto. Mas passei a refletir a respeito justamente porque estou produzindo conteúdo escrito. Inclusive porque sou pedagoga e professora e entusiasta da leitura e escrita. Não acho que devemos nos curvar à dinâmica das redes sociais porque não o faríamos sem grandes perdas, que dizem respeito ao pensamento, à interpretação de texto e ao pensamento crítico.
Outro esclarecimento antes de ir para esse lado da questão: a internet e as redes sociais são realidades, não tem como voltar atrás. Não estou dizendo, não diria jamais: “desligue o computador e vá ler um livro”. Seria ridículo, para não dizer elitista. Embora eu recomende que vá ler um livro, caso você tenha condições para tal, eu apenas quero chamar a atenção para essa questão, ocasionar uma reflexão e pensar em maneiras para a gente dobrar essa lógica um pouco mais a nosso favor. Que não sejamos usados pela internet, que façamos um bom uso dela. Só isso. Vou contar um caso pessoal.
Nessa quarentena, eu finalmente criei coragem de examinar o interior dos meus armários e fiquei envergonhada ao constatar a quantidade absurda de artigos científicos impressos que foram para a reciclagem. Isso é não é legal, não é benéfico, saudável, sustentável. Mas isso se deu porque justamente eu era muito resistente à leitura na tela do computador, argumentava comigo mesma que eu não conseguia me concentrar. O fato é que é possível se concentrar na leitura na tela, apenas não é fácil e há pessoas que têm maiores condições de fazê-lo, outras nem tanto. Será mais fácil quebrar a lógica da internet para algumas pessoas do que para outras. Mas vale a tentativa.
Existem alguns autores clássicos nas ciências da educação que trataram da questão da aquisição do conhecimento. Vou falar bem resumidamente das ideias de Jean Piaget e Vygotsky. Posteriormente, vai ficar clara a ligação com o assunto em questão.
Para Jean Piaget, existem certos esquemas de pensamento que são “perturbados” pela aquisição de novos conhecimentos. Vamos usar uma metáfora que talvez ajude na compreensão: pense que você está tranquilo em pé, parado. Algum passante que anda distraído tromba em você. Você, desavisado, tenta se equilibrar pra não cair. Quando passa essa perturbação, você está de novo firme no chão. Caso tenha caído, você se levanta. É mais ou menos o que acontece quando você é exposto a um novo conhecimento, a uma nova ideia que não tinha te ocorrido antes. Mais precisamente é o que acontece quando você faz uma leitura crítica ou se propõe a escrever algo que seja um pouco mais profundo, por assim dizer: você tem os seus conhecimentos prévios que são abalados por uma nova ideia ou conhecimento que você assimila ou produz. Vejam, assimilar aqui não significa concordar, porque discordar de maneira embasada é tão válido quanto concordar. Quando você discorda, significa que você pensou a respeito. Importante lembrar que discordar de conhecimentos científicos sem um embasamento não é benéfico, podendo ser até perigoso. Estamos vendo os resultados disso, em particular no Brasil. Mas esse seria um assunto para outro artigo. Portanto, sigamos.
Para Vygotski, a aquisição de conhecimento se dá mais ou menos da seguinte maneira: existe aquilo que você consegue fazer de maneira autônoma, um cálculo, por exemplo, e aquilo que você conseguiria fazer, que você um dia poderia fazer de maneira autônoma, mas para isso precisaria de uma intervenção externa. Eu, por exemplo, não sei até hoje fazer cálculo de divisão com duas casas decimais no divisor. Ficaria agradecida se alguém se oferecer a me ensinar porque daí então, o cálculo que, segundo Vygotski, está na minha zona de desenvolvimento potencial (aquilo que eu poderia fazer), passaria a pertencer à minha zona de desenvolvimento real (aquilo que eu de fato consigo fazer de maneira autônoma) e o processo de ensino e aprendizagem entre essas duas zonas é o desenvolvimento proximal, é o caminho que preciso percorrer ao lado de alguém para chegar lá, esse alguém em educação escolar é o professor. Pensando na metáfora do esbarrão: você parado, alguém esbarra em você. Você cai, não conseguiria se levantar sozinho, alguém lhe dá a mão e, às vezes, esse alguém é um educador ou professor.
Como eu dou voltas para chegar onde quero chegar. Perdoem-me. Não posso achar isso senão bom. Só posso esperar que não tenham abandonado a leitura para ver foto no Instagram. Desculpem a metapiada.
Entretanto, na minha leitura o que considero que existe em comum entre Piaget e Vygotski é a noção de desafio que essa “perturbação” representa. Piaget coloca o aluno ou o aprendiz no centro; Vygotsky, o professor ou a pessoa que intervém na aquisição do conhecimento. Mas acredito que ambos só viam um exercício mental ou cognitivo se essa nova ideia ou conhecimento nos tirarem da nossa zona de conforto, por assim dizer. Se estiverem além daquilo que já dominamos. Mas o que isso tem a ver com leitura e internet, meu deus?
Vamos pensar nas imagens, nas fotografias. A imagem está ali para ser contemplada, o que é válido e legítimo. Afinal, fotografia é uma forma de expressão importante, maravilhosa, artística. Eu não quereria viver em um mundo sem fotografia. Mas, estou falando de processos mentais e pensamento crítico que são específicos da leitura.
Um vídeo também é válido, legítimo. Do mesmo modo, não quereria viver em um mundo onde não há vídeo, ainda mais considerando os excelentes comunicadores que existem. Mas vocês entendem que a gente fica mais passivo vendo um vídeo? Que a gente mais recebe do que dialoga? Será que é isso que se dá mesmo? Pode ser que sim, pode ser que não. Relembro, são hipóteses, coisas a se pensar.
Paulo Freire disse que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, no que ele está absolutamente certo. A palavra escrita é apenas uma das formas de linguagem. Mas será que não estamos abrindo mão da palavra escrita, sem nem perceber? É essa a minha reflexão. Há mil situações: às vezes, a gente não quer pensar, refletir, engendrar pensamento crítico, o que é extremamente válido. Mas será que não estamos abrindo mão demais da nossa capacidade de leitura, nos curvando aos truques e dinâmicas das redes sociais? É isso o que me preocupa. Que estejamos deixando de ler quando a internet pode possibilitar que realizemos a leitura, só que de um jeito diferente.
RESUMINHO
Este artigo teve como objetivo propor uma reflexão sobre a internet e a prática da leitura. Não tem como objetivo exaltar livros ou publicações impressas nem desqualificar a internet que, possui inúmeros problemas e questões a serem pensadas, mas que, sem dúvida alguma, é uma ferramenta que possibilita a expressão de tantas pessoas, incluindo a mim mesma. Em resumo, não se trata de pensar em termos de livro contra internet. Nada disso.
A minha preocupação é apenas com o fato de que, talvez, estejamos alterando o nosso comportamento, no mundo virtual, sem nos darmos conta. Aqui falo especificamente do nosso comportamento como leitores. É apenas uma reflexão, não tenho a mínima intenção de dizer que essa é uma realidade absoluta ou de julgar aquilo que não é profundo, ou extremamente crítico. A internet nos ajuda também a distrair, o que é ótimo.
Em resumo, o que me preocupa é que: tal como a criança que assiste muita televisão tem a sua capacidade de concentração reduzida, nós, que usamos redes sociais, podemos ter a nossa habilidade de leitura prejudicada.
Do mesmo modo que não nascemos alfabetizados, não nascemos dominando as ferramentas da internet. Eu mesma estou aprendendo. Lembram que eu disse que eu era resistente a ler na tela? Pois eu tive que aprender, afinal não posso comprar muitos livros ou imprimir muitas páginas. É insustentável. Mas descobri que é possível ler na tela. Às vezes, cansa, mas é possível. Pense que é um exercício: do mesmo jeito que a gente começa a realizar uma atividade física, nós não aguentamos muito a princípio, começamos com poucas repetições dos exercícios, com pesos menores e vamos aumentando aos poucos. Usar as ferramentas digitais para ler é bastante similar.
Eu, na minha teimosia, dizia para mim mesma “gosto de usar marcador, de escrever no canto do livro”. A verdade é que, se você tem uma ferramenta de leitura de arquivo em pdf no seu computador ou tablet como o Foxit, por exemplo, você consegue fazer tudo isso e até mais porque você consegue compartilhar o documento com alguém. Quanto às notas, não há limite de espaço, você pode escrever a nota no tamanho que quiser e o texto não fica poluído. Marcador de texto existe ali de todas as cores. Ainda estou me adaptando e aproveitando a ferramenta do computador e da internet para conhecer outras leituras.
Para fechar esse artigo que, assumo, ficou mais longo do que eu imaginava a princípio, deixo a indicação de um livro sensacional que trata da questão da leitura que é A leitura, outra revolução de María Teresa Andruetto (São Paulo, Edições SESC, 2017). A fotinha tá aí.
Também contribuiu muito para a redação desse artigo a matéria de Paulo Adamo Idoeta, segue referência completa e link:
IDOERTA, P. A. Hábitos digitais estão “atrofiando” nossa habilidade de leitura e compreensão? BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-47981858. Acesso em: 07/jun/2020.
Bruna Vasques é Cientista Social e Pedagoga. Gosta de Drag Music a Heavy Metal, de documentário a série absurda. Anda lendo o que tem na estante de casa e sua mais nova encanação são os estudos de gênero e feministas.


Comentários
Postar um comentário