Drag IS fucking ART, henny!
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| Málaga Valência |
Por Bruna Vasques* e
Málaga Valência
Málaga Valência
A semana passada chegou ao final a 12ª temporada de RuPaul’s Drag Race e ontem, dia 5 de junho começa a temporada 5 de RuPaul All Stars! Mas,
infelizmente perdemos uma artista drag de vanguarda no contexto brasileiro,
Miss Biá, para o Covid-19. Esse é artigo é, ao mesmo tempo, uma celebração e
uma homenagem à arte drag e à Miss Biá.
Se você acha que uma
drag queen é apenas um homem vestido de mulher, você está muito enganado, meu
bem! Uma drag queen é uma artista versátil que você deveria conhecer! Apesar de
não achar que elas podem ser enquadradas em categorias justamente por conta
dessa versatilidade, dá pra explicar melhor o trabalho se entendermos alguns
tipos básicos.
1- A drag de concurso: é, geralmente, a drag beeeeeem feminina, com
roupas glamourosas, vestidos longos, sapatos altíssimos, muitos acessórios,
brilhos, carão e pose. Elas têm fama de serem muito competitivas porque (dã)
vivem competindo para ganhar troféus, coroas e tudo o mais. No entanto, existem
muitas drags de concurso que enveredam por outros caminhos, são carismáticas e
têm um coração enorme. Bons exemplos são Trinity The Tuck, Alexis Matteo e Yara
Sophia.
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| Coco Montrese, drag concurseira |
2- A drag comediante: não precisa dizer que essa faz todo mundo rachar o
bico. Existem drag queens realmente muito talentosas no ramo da comédia, que
fazem você se acabar de dar risada. Algumas têm um humor mais ácido como Bianca
Del Rio. Outras pegam mais leve como Jinkx Monsoon, outras são escrachadas como
a Katia, outras são naturalmente engraçadas até sem estarem montadas como a
Heidi, a Alaska Thunderfuck e a hilariante Vanessa Vanjie Matteo (e a Katia de
novo, que é escrachada o tempo todo, montada ou não). Aqui pertinho da gente,
temos a queridíssima Málaga Valência que, além de fazer a gente rir horrores, é
uma importante militante do movimento LGBTQIA+ do interior de São Paulo!
Maravilhosa!
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| Nany People, ícone da comédia brasileira |
3 – Fashion queen: a drag da moda é aquela top model, toda trabalhada na
runway, no carão e nas roupas bafônicas de última tendência. Apesar de poderem
ter outros talentos, o seu forte é a moda, a passarela. Nessa categoria podemos
encontrar Raja e Aquaria.
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| Nicky Doll, fashion queen |
4- Drag musicista: é aquela que, além de conseguir construir uma
perfeita ilusão de figura feminina, manda bem cantando ou em tocando algum
instrumento (ou os dois). Tem drag cantora de monte, mas algumas são realmente
muito boas nesse quesito, a já citada Jinkx Monsoon que tem uma banda, a Adore
Delano e a Courtney Act que fizeram aparições em reality de canto antes de Drag
Race, a Nina Flowers que é DJ, a Thorgy Thor que toca violino, a Trixie Mattel
que toca e canta folk e country. No Brasil conhecemos bem Pablo Vittar, Lia Clark, Aretuza Lovi e por aí vai.
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Gloria
Groove, drag cantora brasileira
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5- Drag dançarina: a drag dançarina é aquela que “got the moves”, a que
dança pra caralho. Muitas estudaram dança e sabem cantar também. Temos Brooke
Lynn Hytes que é bailarina clássica, Alyssa Edwards que tem um estúdio de
dança, Jan que é cantora além de dançarina. E existem aquelas que tem o
movimento sem educação formal, mesmo. She Coulée conseguia dar piruetas triplas
na sua temporada. Widow Von Du é a uma big girl da última temporada que tem o
rebolado e muitas outras.
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Alyssa Edwards, drag professora de dança
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6- Weird drag: a drag estranha é uma drag com conceito diferente, fora
do padrão, que gosta de confundir a audiência, faz a gente dar risada, mas
também refletir porque geralmente elas vêm com alguns conceitos e referências
que não são propriamente do mundo queer ou do mundo drag, dos quais elas fazem
releituras muito interessantes. Yvie Oddly, a maravilhosa Sasha Velour e Crystal
Methyd podem ser enquadradas nessa categoria.
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Yvie Oddly, drag destruidora de padrões
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7- Drag Monstra: é uma drag trevosa que traz uma coisa de filme de
terror em seus looks e atitudes. Todo mundo deve se lembrar da Sharon Neddles
que é uma queen talentosíssima. MAS, existe um reality show excelente,
marvilhoso, bafônico chamado DRAGULA que só tem drag das trevas. É o
underground do drag, afrontoso e fora do padrão provando que não existe uma
maneira única de fazer drag, ou melhor, que nem todo drag precisa ser polido e
limpinho. Espero escrever um artigo só sobre Dragula em um futuro próximo. Aqui
temos o drag king (isso mesmo, drag KING) Landon Cider, Bitqch Puddin, Abhora,
Vander Von Odd, Louisiana Purchase, Eva Destruction, Priscila Chambers e muitas
outras.
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The
Boulet Brothers comandam o reality que busca pela próxima Drag Monstra
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8- Top Drag: Conversando com a própria Málaga Valência, maravilhosa, ela
me falou sobre essa categoria de drag que, além de arrasarem nos looks todos
trabalhados na pedraria, maravilhosos e de terem corpos esculturais, arrasam no
BATE CABELO! Sim, as manas usam perucas belíssimas, geralmente longuíssimas,
com as quais fazem uma coreografia de cabelo que a gente fica passada! Tudo
sincronizado com a música, lógico, pra dar aquele close certo! A própria Málaga
é babado no bate, mas também temos outras brasileiras como a Striperella e a
Robytt Moon.
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| Márcia Pantera, precursora do bate cabelo no Brasil |
9– Drag intelectual: não posso deixar de citar a maravilhosa Rita Von
Hunty que tem um trabalho fenomenal no Youtube, compartilhando os seus estudos
e o seu conhecimento, com humor e posicionamento crítico.
M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A. A bicha é inteligente pra caralho e excelente
comunicadora.
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| Dona Rita, drag professora de humanas |
Eu separei as drags em categorias, mas a verdade é que dificilmente uma drag têm apenas um talento ou se aperfeiçoou em apenas uma área artística. Quanto mais a arte drag adentra o mainstream, mais se exige delas para serem bem-sucedidas. “Ah, o mainstream é uó”. Uó é que ele seja ocupado só por pessoas com poderes estabelecidos. Drag é, grandemente, uma forma de arte queer e LGBTQIA+ e por isso é importante já que, além de uma ótima forma de entretenimento, dá visibilidade a essa comunidade e afronta o status quo.
Uma
pessoa sem o conhecimento da arte drag pode achar que é uma forma de arte
pautada nos estereótipos negativos das mulheres. Não acho que seja assim, não.
Drag é uma ilusão feminina, é uma representação artística. E como já disse, são
cantoras, instrumentistas, dançarinas, costureiras, maquiadoras, atrizes,
comediantes. Às vezes uma só artista consegue realizar todas essas formas de
arte em drag. Se isso é representar a mulher, eu me sinto homenageada.
O exagero na arte drag
é importante porque é uma forma de arte que tem como locus principal o palco.
Claro, existem artistas minimalistas, que usam trajes simples para destacar a
própria arte (grupos de dança, por exemplo). Mas, no caso da drag, seja ela
musicista, cantora ou dançarina a sua arte é, principalmente, ser uma drag
queen que consegue ser exagerada sem
depreciar a figura feminina. Drag queen é drag queen, não é sinônimo de
mulher. Drag é arte, mulher é uma identidade de gênero plural.
Na realidade, esse jogo
que a drag faz com os papéis de gênero é muito provocativo, faz a gente pensar
a questão de outra perspectiva porque é a própria quebra do estereótipo, não
sua confirmação. Via de regra, uma drag queen é um homem (embora existam drag
mulher tanto cis como trans) que têm um apreço pelo que seria do mundo
feminino: acessórios, maquiagem, cabelo, vestidos. Muitos deles relatam que,
desde crianças, vestiam e usavam essas coisas com ou sem conhecimento dos
parentes. Muitos sofreram, por conta disso, bullying e homofobia. Alguns não
são LGBTQIA+, alguns são heterossexuais
(embora sejam minoria) e gostam de usar maquiagem e vestidos. E por que
não?
Jaida Essence Hall
agradeceu assim à RuPaul: “Obrigada por me mostrar que você pode ser um
garotinho gay negro, que você pode crescer e ser o que quiser. Até mesmo uma
mulher negra”.
Eu citei algumas drags
brasileiras, mas seria uma idiota se não citasse outras tão maravilhosas como:
Lorelay Fox, Penelopy Jean, Ikaro Kadoshi, Alexia Twister, Mina de Lyon, Alma
Negrot, Rodrag e MISS BIÁ
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| Miss Biá
(1939-2020)
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Como disse no início deste artigo, para o nosso pesar, veio a falecer no
dia 3 de junho, aos 81 anos, a drag queen brasileira Miss Biá, vítima da
Covid-19. Uma drag queen que tinha uma carreira de 60 ANOS, que se montava
desde 1958 merece a nossa homenagem e o nosso respeito porque, se ainda hoje, a
arte drag é vista com preconceito por muitas pessoas que não se dispõe a
conhecer a diversidade das expressões artísticas, imagine em uma época em que
não havia, praticamente, discussões sobre as diversidades que sempre fizeram
parte da sociedade.
Este artigo é uma
homenagem à Miss Biá, maquiadora, performer, drag queen. Maravilhosa. Que
descanse em paz.
Bruna Vasques é Cientista Social e Pedagoga. Gosta de Drag Music a Heavy Metal, de documentário a série absurda. Anda lendo o que tem na estante de casa e sua mais nova encanação são os estudos de gênero e feministas.












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