Citada como exemplo de resistência em ecologia, em tese de doutorado em educação da UNICAMP, a banda Arandu Arakuaa (que significa saber dos ciclos dos céus
ou sabedoria do cosmos, em Tupi-Guarani), teve início em abril de 2008 com Zândhio Huku. Mas foi em agosto de 2011 que a banda
fez o seu primeiro show e, desde então, divulga o seu trabalho com um
repertório 100% autoral. Participou de uma cena para uma série sobre o lendário Zé do Caixão, interpretado pelo ator Matheus Nachtergaele e transmitida pelo canal de Tv Space, além de matérias em mídias de grande circulação como BBC Brasil, Uol, G1, Terra, O Globo, Correio do Povo, dentre outros. A musicalidade da banda
mescla heavy metal à música indígena e regional brasileira, com letras inspiradas nas cosmologias,
sabedorias e lutas dos Povos Indígenas do Brasil. Desta maneira, buscando
contribuir para a divulgação e valorização de suas manifestações culturais,
subestimadas durante os séculos. Para entendermos melhor a proposta da banda, conversamos com o fundador da banda Zândhio Huku:
IMERSA
S/A: Como surgiu a ideia de abordar temáticas indígenas em suas
canções?
Zândhio Huku – Na verdade não foi uma ideia, foi um processo
natural ter essa necessidade de me expressar artisticamente através da música
abordando algo que sempre esteve presente na minha vida.
IMERSA
S/A: Qual é o dialeto utilizado nas canções de língua indígena?
Zândhio Huku – Os três idiomas indígenas que utilizamos são:
Tupi, Xerente e Xavante.
IMERSA
S/A: A banda mantém contato direto com alguma tribo em específico?
Zândhio Huku – Mantemos contato a nível pessoal e/ou na
militância com os parentes indígenas de diferentes povos, inclusive de outros
países da América Latina. Eles sempre demonstram muito respeito pelo nosso
trabalho artístico e pela forma que abordamos e divulgamos as culturais
nativas.
IMERSA
S/A: As letras trazem elementos culturais muito ricos e descritivos
em relação à percepção dos elementos da natureza e da espiritualidade. Poderia
nos falar mais sobre isso?
Zândhio Huku – Em sua maioria são desdobramentos de vivências
espirituais que estão intimamente ligadas com as tradições dos povos originários,
que por sua vez estão totalmente integradas com as questões ambientais.
IMERSA
S/A: Alguma banda em específico influenciou a Arandu Arakuaa a
fazer essa miscigenação transcultural entre o metal e os elementos musicais
produzidos pelos povos indígenas?
Zândhio Huku – Não. O foco maior é abordar as questões
relacionadas às culturas do povos ancestrais e ter bem forte as influências da
música indígena brasileira nas melodias. E a partir daí misturar com toda a
diversidade musical que temos. Crescemos
ouvindo diversos tipos de música brasileira e música indígena. O rock e o metal
vieram mais tarde, então todas essas influências se misturam naturalmente no
processo criativo. Está no nosso DNA.
IMERSA
S/A: Como a maioria dos fãs da banda, ao ouvir as suas canções logo
as identifico como suas! Conte-nos sobre os instrumentos que utilizam para dar
o toque Arandu nas canções.
Zândhio Huku – Usamos os principais instrumentos indígenas:
maracas, apitos, flautas, chocalhos de pé, pau de chuva, efeito jatobá... E
também elementos de percussão: berimbau, pandeiro, triângulo... E claro a viola
caipira. Importante falar que somente o uso desses instrumentos não faz com que
o som tenha identidade própria, isso deve-se mais ao estilo de composição. De
nada adiantaria incluir esses instrumentos em músicas que não foram pensadas
para esse propósito.
IMERSA
S/A: Nos primeiros trabalhos da banda, o Death Metal era bastante
presente nos trechos mais agressivos. Essa característica pode ser associada à
antiga formação com os vocais da Nájila Cristina?
Zândhio Huku – O primeiro disco “Kó Yby Oré” tem um zilhão de
riffs haha, talvez porque éramos um pouco inexperientes e acaba sendo menos
complicado fazer algo mais visceral com a guitarra sempre dando o tom e
carregando a música. Também o fato da Nájila não se sentir confortável cantando
limpo fez com que tivesse muito vocal rasgado, que são característicos do
thrash/death metal. Importante mencionar que nesse disco já tinha músicas
acústicas e todas essas passagens típicas da sonoridade da banda, já dando a
dica que iríamos seguir um tipo de música mais elaborada e complexa com foco na
melodia, a escolha da música “Gûyrá” como primeiro single deixa bem claro essa
intensão.
Nos trabalhos seguintes fomos evoluindo na nossa proposta
artística, esse é o caminho natural, em especial de bandas com um som mais
experimental como o Arandu Arakuaa. Claro seguimos sempre mantendo as
influências do metal extremo, por exemplo a música “Jurupari” do disco “Mrã
Waze” e a música “Ybytu” que iremos lançar em julho, são mais pesadas, densas e
agressivas do que qualquer material antigo nosso.
Gûyrá
IMERSA
S/A: A presença da nova baixista e também vocalista Andressa
Barbosa trouxe um plus à banda.
Conte-nos um pouco sobre como se deu este encontro musical de sucesso.
Zândhio Huku – Durante a gravação do disco “Mrã Waze”, no primeiro
semestre de 2018, nosso antigo baixista Saulo Lucena nos informou que
precisaria se mudar pro estado da Paraíba, mas antes fez questão de gravar o
disco e os videoclipes. Ele sempre foi uma peça muito importante pra banda, em
especial pro clima interno. Após o segundo semestre de 2016 quando a antiga
formação se desfez, eu e ele seguimos firmes no propósito, então já sabíamos
que a sua saída seria a mudança mais difícil que a banda passaria. Mesmo
morando longe ele continua sendo um grande amigo e apoiador da banda.
Após a saída do Saulo, a Andressa nos procurou, ela já era uma
baixista respeitada e requisitada na cena do DF. Em apenas uma conversa rápida e um ensaio ficou
claro que ela era a pessoa certa pro cargo, e desde então vem sendo de
fundamental importância para que possamos continuar produzindo. Um tempo depois,
no início de 2019, a Lís Carvalho, que gravou o disco “Mrã Waze” decidiu sair,
e nem teria porque chamar alguém de fora já que a nossa baixista é também uma
excelente cantora. Com apenas dois ensaios fizemos o show de abertura pra banda
Angra e já estávamos confortáveis como quarteto. Está sendo uma experiência
maravilhosa ter apenas instrumentistas fazendo os vocais, inclusive nas músicas
que gravamos esse ano foi mais fácil o processo de registro das vozes, devido a
sintonia entre nós. Tocar e cantar ao mesmo tempo é algo muito difícil, ainda
mais com a complexidade do instrumental das nossas músicas, acaba que fica todo
mundo muito concentrado na música, não restando espaço pra alguns
comportamentos típicos de muitos vocalistas que tendem a ficar inseguros quando
algum colega de banda é tão notado pelo público quanto ele. Só com instrumentistas
ninguém precisa se encolher pra vocalista desfilar hahaa.
IMERSA
S/A: Há um compositor principal ou a banda toda participa do
processo de criação das músicas?
Zândhio Huku – Até o momento tem funcionado comigo levando a
estrutura das músicas (melodias, letras, riffs...) e a partir daí todos
contribuem com suas partes, inclusive o produtor Caio Duarte, que produziu
todos os nossos discos.
IMERSA
S/A: Na atual conjectura social, em específico, durante a pandemia
do COVID-19, como vocês avaliam a assistência aos povos indígenas brasileiros?
Zândhio Huku – infelizmente os povos indígenas estão sem
qualquer assistência, o que já era de esperar desse governo genocida.
IMERSA
S/A: Várias bandas tomaram posicionamento frente ao caos político
instituído no país. Pretendem direcionar as próximas composições nesse sentido?
Zândhio Huku – Desde o início nosso posicionamento sempre foi
a favor das minorias, até porque somos parte dela e nosso público sempre soube
disso. Na verdade nosso público sempre viu as nossas músicas também como um ato
de resistência e enfrentamento político. Nas culturas dos povos originários
tudo está interligado, falar sobre a natureza e os saberes ancestrais é também
resistir, é fazer política.
Eu enquanto compositor não me sinto inspirado para falar sobre
política de forma direta, isso eu faço o tempo todo na minha vida como cidadão
e no meu trabalho como educador. Já tenho que suportar toda essa merda na minha
vida diária, eles não estarão nas minhas músicas nem fodendo! Já pensou que
brochante seria ter a palavra “Bolsonaro” em uma música nossa?! Tiraria toda a
magia da coisa haha.
IMERSA
S/A: Os clipes são sempre lindos e verdes. Onde realizam as
gravações?
Zândhio Huku – Até o momento temos oito videoclipes e todos
foram gravados aqui na região do DF, por uma questão de logística e também por
a gente querer mostrar que aqui ainda tem bastante verde aqui. Todos vídeos
clipes foram dirigidos pelo produtor dos nossos discos.
Kaburéûasu
IMERSA
S/A: Sobre o novo trabalho Waptokwa Zawré, como foi o processo
de criação e sobre quais temas se debruçaram para compor?
Zândhio Huku – Em janeiro aproveitamos a rápida estadia do
produtor Caio Duarte no Brasil e gravamos cinco músicas. O planejamento é
lançar uma música de dois em dois meses até no fim do ano, Waptokwa Zawré
(grande espírito, em Xerente) foi lançada em março, e Kaburéûasu(coruja, em
Tupi) lançada em maio. A primeira fala sobre sermos parte do grande mistério
que é a nossa existência e da consciência que viemos depois do sol, da lua, do
reino mineral, vegetal e animal e que devemos não apenas viver em harmonia, mas
também reverenciá-los. A segunda fala sobre a coruja como a grande mestre, a
grande curandeira, como é conhecida em várias culturas nativas.
Waptokwa Zawré
IMERSA
S/A: Há no Brasil algumas bandas com temáticas regionais, como a
Cangaço. Não podemos deixar de mencionar a Sepultura como uma banda de
vanguarda no quesito valorização das nossas raízes culturais e que de alguma
forma conseguiu levar para o exterior um pouco da música brasileira. Se pudesse
escolher, com quais bandas gostaria de tocar em um festival de metal que
tivesse como intuito promover a cultura brasileira?
Zândhio Huku –Na verdade isso aconteceu em 2017 no BR Metal,
em São Paulo. As bandas que tocam foram: Arandu Arakuaa, Armahda, Tamya Thrash
Tribe e Voodooprist. No mesmo ano tocamos no Tribus Festival, em Carangola MG
que tinha essa proposta também e em outros festivais com esse conceito de
valorização da nossa cultura, claro nem todas as bandas participante tinham
essa temática. IMERSA S/A: Sobre a discografia, a banda conta com oEP "Arandu Arakuaa –
2012” e três álbuns “Kó Yby Oré – 2013”,“Wdê Nnãkrda – 2015” e “Mrã Waze – 2018”
e os singles “Waptokwa Zawré e“Karubéûasu” em 2020”. Conta também com oito
vídeos clips e dois lyrics vídeos. Onde podemos encontrar os materiais da Arandu Arakuaa?
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