Paris tá queimando, quirida!


            



Por Bruna Vasquez*

            Shade

            Reading

            Realness

            Eleganza Extravaganza

            Shantay

            Opulence! You won everything!

            Category is...

            10’s, 10’s, 10’s across the board!



            Se você acompanha RuPaul’s Drag Race, já ouviu essas expressões na boca de Mama Ru e suas filhas… Mas, saiba que são expressões de uma cultura LGBTQIA+, marginal e muitos mais antiga do que o reality. Cultura marginal retratada no documentário Paris is Burning (1991).

            Marginal aqui não tem nenhuma conotação pejorativa. Na verdade, a palavra marginal não tem em si nada de pejorativa, referindo-se àquilo que se situa à margem da sociedade em razão da segregação, discriminação e injustiça sociais. O que é marginal incomoda porque denuncia justamente esses preconceitos e resiste à ordem estabelecida. É disso que Paris is Burning trata.

           

            NOVA YORK

            1987

            Lembro de meu pai dizer: “Você tem três problemas nesse mundo. Todo negro tem dois – são homens e negros. Mas, você è negro, homem e é gay. Você vai sofrer muito”. Então disse: “Se você vai fazer isso, vai ter que ser mais forte do que pensa”.



            Assim inicia o premiado documentário. Se a população LGBTQIA+ ainda sofre toda a sorte de dificuldades apenas por ser quem é, imagine nos bairros periféricos da Nova York de fins dos anos 80. Foi nesse contexto que surgiram os balls, os bailes onde essa galera se reunia e competia por troféus, onde essa população marginalizada podia se mostrar da forma como quisesse e sonhar com quem poderia ser não fossem as barreiras sociais.

            Ao contrário de RuPaul’s Drag Race, os bailes de Nova York não eram só para drag queens, na real todos eram bem-vindos: as categorias incluíam todo mundo, os LGBT mais machos, travestis, pessoas trans, dançarinos, temas os mais variados (umas das categorias mais tradicionais era a militar, em que as pessoas desfilavam de farda).

            As competições eram acirradas entre as casas. A casa era de fato um lugar onde moravam várias pessoas que eram da mesma família, se conheciam nos bailes e iam morar umas com as outras. É porque as pessoas LGBTQIA+ viviam situações difíceis em suas vidas, muitos eram (e ainda são) expulsos de suas famílias de origem apenas por terem uma orientação sexual ou identidade de gênero diversa e iam viver nas ruas naquele contexto (bem como hoje). Acontecia de essa pessoa ser adotada por uma mãe que era a líder da casa, a que cuidava das suas “crianças”, orientava, além de, às vezes, costurar as roupas e preparar as crianças para o desfile no baile. A competição entre as casas era o que dava a adrenalina no baile, melhor do que ganhar um troféu, era vencer a casa rival. Se hoje RuPaul é chamada pelas queens de MamaRu é por conta dessa tradição que, ela muito dignamente, não deixa esmorecer.

            Pepper LaBeija. Dorian Corey, Octavia Saint Laurent, Willi Ninja e Angie Xtravaganza preenchem o documentário com sua sabedoria e crítica denunciando corajosamente a homofobia e o racismo na cidade de Nova York. Pessoas marginalizadas que eram resistência não apenas por existirem mas por terem ajudado outros jovens a existir, a se aceitarem como são.

            Se o trabalho de muitas drag queens ganhou o mundo hoje em dia não foi apenas por causa de RuPaul ainda que a sua importância deva ser reconhecida. Foi também por conta de pessoas como as que aparecem no documentário e de gerações ainda anteriores, como a representada por Marsha P. Johnson que liderou a revolta de Stonewall, em 1969.

            É o famigerado close certo.



            Devo denunciar que a Netflix fez a ridícula e retirou Paris is Burning de seu catálogo. Mas, não se desespere, mana. Aqui vai o link do documentário legendado em português,querida?

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Paris is Burning (1991). Dirigido por Jennie Livingston. 

Ficha técnica completa no IMDB: 

https://www.imdb.com/title/tt0100332/













Bruna Vasquez é Cientista Social e Pedagoga. Gosta de Drag Music a Heavy Metal, de documentário a série absurda. Anda lendo o que tem na estante de casa e sua mais nova encanação são os estudos de gênero e feministas.

 
           
           
           
           
           
           
                       

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