Nervosa e a representatividade feminina no mundo do Metal



Por: Natália Almeida*

Não é recente a discussão sobre a crescente de musicistas mulheres que se inseriram no mundo do Rock.

Nomes como Janis Joplin, Lita Ford, Baby do Brasil, Joan Jett, Doro Pesch, Emy Lee, Pitty, Tarja Turunen, Suzi 4, Angela Gossow, Alicia White-Gluz, e as contemporâneas (e não menos expressivas), May Undead, Fernanda Lira, Luana Dametto, a feliz descoberta de 2020, Cacau Pinheiro, entre tantas outras mulheres fodásticas que cantam, tocam e compõem, levaram e ainda levam consigo a missão de provarem seus talentos para além de corpos, makes e cabelos exóticos.

Em entrevista ao Canal Panelaço, do querido João Gordo (Ratos de Porão), Prika Amaral, guitarrista e fundadora da banda Nervosa, teceu de modo muito coerente e ético como se deu o início de sua trajetória com a banda e como se deu o fim da última formação.

Ao ser perguntada sobre a razão da saída de Fernanda Lira (vocal e baixo) e Luana Dametto (bateria), Prika ressaltou a necessidade de prosseguir predominantemente com o estilo thrash metal nas composições como fator de maior incongruência entre as meninas.

A guitarrista discorreu ainda sobre o inevitável desgaste que as turnês constantes trouxeram à convivência entre a banda e como isso influenciou na não fluência das novas composições.

Entre tantas histórias relembradas pela guitarrista, uma elucida o viés machista ainda presente entre as bandas de Metal. Prika contou que em uma das turnês americanas a banda precisou ficar quieta por dividir a van com uma outra banda simplesmente porque os caras não gostavam que elas se comunicassem em português.

Em entrevista cedida ao canal do Youtube Last Mosh, Luana Dametto (ex-baterista da Nervosa), afirmou que ainda muito cedo decidiu ser baterista e desde então estuda diariamente para ser a baterista impecável que é dentro do seu estilo, o Death Metal. Ela ressalta que se sente irritada ao ler comentários como: “linda” ao postar vídeos tocando e dando o seu melhor. Na mesma entrevista Luana relata enfrentar problemas com técnicos de som ao pedir equipamentos para os shows, e, revoltada, diz que as vezes é preciso pedir à algum homem que refaça o pedido para que seja atendida em suas necessidades.

O que inicialmente parecia aos fãs da Nervosa um triste desfecho de uma história de muita garra, foi apenas uma oportunidade de multiplicação de bandas de metal femininas.

E isso deixou à toda comunidade headbanger, em especial às mulheres, uma lição de luta, amistosidade e profissionalismo, uma vez que em nenhum momento qualquer das meninas teceram comentários que desqualificassem umas às outras, pelo contrário, em suas postagens nas redes sociais a mensagem era de gratidão e de início de um novo ciclo.

Nervosa veio para mostrar a capacidade que as mulheres têm de se reinventar quantas vezes forem necessárias, que podem ser parceiras (diferentemente da constante competição consolidada no imaginário social feminino), e que para além de nomes ideológicos ou bordões enfatizando “o sagrado feminino”, a mulher conquista espaço fazendo as coisas acontecerem!

Vida longa à Nervosa, vida longa à todas as mulheres que não desistem jamais de estarem onde quiserem e não se limitam à aparência das redes sociais e à uma realidade editada em conformidade com os padrões sociais machistas!

Confira na íntegra as entrevistas citadas:



  
*Natália Almeida é Pedagoga, musicista, apaixonada por felinos e amante das artes em todas as suas vertentes.




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