Giddens e O Silêncio dos Homens
Imagem: site Nova Escola
Por: Bruna Vasquez*
Eu adoro uma ciência chamada Sociologia. Muitas pessoas odeiam e deve ser pelo mesmo motivo que eu a adoro: porque faz a gente ver além das aparências enganosas. Muitas coisas tidas como “naturais” são construídas socialmente (você já deve ter ouvido algum cientista social falando numa mesa de bar sobre a tal construção social de tal ou qual conceito ou fato social. Não ouviu? Recomendo). Mas, o que vem a ser uma construção social? Ora, depende daquilo a que estiver se referindo porque se trata mais de como a coisa se constrói. Parece não fazer sentido. Vou dar um exemplo: eu escrevi outro texto para este mesmíssimo blog falando sobre uma obra que trata da construção social do “ser mulher” - Segundo Sexo de Simone de Beauvoir – no qual ela demonstra que não se nasce mulher, torna-se mulher em uma sociedade que já estabeleceu, histórica e socialmente, o papel de gênero feminino: a obra de Beauvoir é emblemática por ter ido além da constatação de que o papel de gênero feminino existe e ter explicado como e porque existe dessa maneira específica. Mas, o tema deste texto, como o título demonstra, é outro,
Amor, erotismo, sexo, intimidade e masculinidade são também, vejam só, construções sociais! “Ah, mas o sexo é biológico!” alguém poderia argumentar… Bom, não falarei sobre sexo nesse post, mas o que posso adiantar é que só o fato de as pessoas não fazerem sexo só para procriar e, sim para ter prazer, já é capaz que enquadrá-lo no âmbito das relações sociais e culturais. Mas, como disse, essa já é outra história.
Anthony Giddens lançou, em 1992, um livro muito interessante chamado A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas. Apesar de ser um sociólogo muito do cabeçudo, ele procurou usar uma linguagem mais clara nesse livro e fez, claro, muitas leituras e estudou pesquisas realizadas por outros cientistas das ciências humanas, ele leu até muitos livros de autoajuda porque queria que as pessoas refletissem sobre os conceitos que estão no título do livro.
Não vou fazer uma resenha do livro porque meu objetivo aqui é outro, mas basicamente, o que Giddens quis nos dizer com a escrita dessa obra é: “Meninos, vocês estão atrasados”. Mas, atrasados em que? É que o desenvolvimento histórico da ordem patriarcal fez com que os gêneros encarassem a intimidade de modos diferentes. “Ah, mas todo mundo, cada um de nós é assim? Tem homem que não é assim”. Calma! É que a Sociologia trata da sociedade, não de um indivíduo ou outro e, para isso, estuda e faz generalizações. “Ah, mas não podemos generalizar!” Bom, se for para entendermos melhor uma ideologia ou um fato social, podemos sim. Mas, vou parar de ter diálogos imaginários aqui senão a coisa não anda.
Simone de Beauvoir, em seu já citado O Segundo Sexo, chamou a atenção para o fato de que as mulheres foram, historicamente, confinadas ao ambiente doméstico. Agora as coisas estão, felizmente, mudando e nós estamos dando as caras no mundo. Não todas nós, claro. Mas, se fizermos uma comparação entre períodos diferentes da história, veremos que hoje em dia estamos adentrando a esfera pública cada vez mais. Graças às nossas antepassadas e figuras contemporâneas maravilhosas.
A relação entre ficar no ambiente doméstico e o desenvolvimento da intimidade é estreita, segundo Giddens: a mulher dentro de casa, acabou por se voltar para essas questões como a intimidade e as relações afetivas, acabou por problematizá-las e, nas palavras de Giddens, tornar-se uma especialista no assunto. Ele cita um estudo na qual uma pesquisadora perguntava para homens e mulheres acerca de seu percurso afetivo, por assim dizer. Os relatos são muito diferentes: as mulheres fazem narrativas, contam detalhes, o que sentiram, o que pensaram nas suas relações afetivas. A narrativa masculina é, por assim dizer, pobre: os homens se atêm, grosso modo, ao número de parceiras e ao desempenho sexual. E não é assim mesmo que acontece? Quando uma mana vai contar a outra sobre um encontro ou alguém que conheceu, o relato é cheio de detalhes, é uma história mesmo. Além disso, as amigas tendem a elaborar juntas, a pensar, a conjecturar. Giddens credita isso à forma como as mulheres se relacionam entre si, as amizades que estabelecem e isso é devido à forma como as relações entre elas se desenvolveram histórica e socialmente.
Com os homens a coisa é diferente: é muito difícil que um homem se abra sobre essas questões com os seus amigos. Como já se disse: o homem vai se pavonear acerca de seu desempenho sexual. Mas, dificilmente vai falar sobre quando as coisas “dão errado” (pra ser sutil) porque pode virar chacota dos amigos ainda que todos passem, pelo menos uma vez na vida, por esse tipo de situação. E também sobre sentimentos, inseguranças, questões existenciais os homens silenciam. Tal silêncio, vejam só, é construído socialmente a partir da diferenciação dos papéis de gênero. Deve ser por isso, então, que as moças são quem convocam as DR, ou discussão de relacionamento, que os homens tanto odeiam. A verdade, no entanto, é que provavelmente nenhuma mulher gosta realmente, mas sabe que algumas coisas precisam ser conversadas. Afinal, tratam-se de dois indivíduos distintos tendo uma relação e a base de toda a relação que se queira saudável é o diálogo. Mas, nós somos taxadas como chatas quando o fazemos. Eu digo que chato é o não dito.
Um dia conversando a respeito de tudo isso com uma amiga queridíssima, minha parça de quarentena, a Sabrina Balsalobre me indicou o documentário O Silêncio dos Homens que é maravilhoso e todo homem devia assistir, independente de classe, etnia ou orientação sexual e isso não porque todos os homens passem pelos mesmos problemas. Ao contrário, o silêncio dos homens atinge homens de maneira diferente dependendo da sua classe e da sua etnia e porque este é um problema que não atinge apenas homens heterossexuais ainda que estes estejam mais “atrasados” do que os de outras orientações (que, muitas vezes, tem amizades com mulheres).
O documentário procura as causas desse silêncio que tem relação com as forças sociais como os papéis de gênero, como já mencionado, mas pode ter relações com outros fatos sociais como, por exemplo, o abandono parental. Na verdade, tais fatos estão relacionados: o patriarcado permite que um homem abandone o filho enquanto condena a mulher que faz a mesma coisa.
O filme mostra também as consequências desse silêncio para os homens e para as pessoas com as quais convivem: em muitos casos os homens utilizam da violência para se expressar e já sabemos as trágicas consequências disto, principalmente para as mulheres com quem se relacionam afetiva e sexualmente e seus filhos. Mas, o que eu achei mais legal (é um pequeno spoiler): propõe grupos de escuta para homens, iniciativas em que os homens possam tratar as suas questões, fazer dinâmicas, aprender uns com os outros e com especialistas, desconstruir uma masculinidade que não é natural e sim, histórica e socialmente construída na ordem patriarcal. O site que elaborou o documentário também fornece orientações para quem quiser formar um grupo de homens na sua cidade ou comunidade.
“Ah, mas você está dizendo que os homens são vítimas”. Essa é o último diálogo imaginário que terei nesse post. Eu acho, como cientista social e como mulher que sou com muito orgulho, que ser do gênero feminino é muito mais difícil do que ser homem, isso é mais do que óbvio. No entanto, acredito que a gente sofre por ser mulher na sociedade patriarcal também porque o homem tem que ser macho na mesma ordem. Não acredito que as mulheres devem ser as únicas responsáveis por criticar e destruir os papéis de gênero: mesmo as que não se relacionam afetiva e sexualmente com homens, convivem com homens em outras esferas da vida. Todas nós convivemos com eles. Está mais do que na hora de os homens assumirem a responsabilidade de suas questões, assumirem fraquezas e limites para que possamos viver de uma maneira mais saudável e feliz. Então, o livro e o documentário que estou indicando aqui servem para isso: não para colocar os homens como vítimas. Mas, para chamar a atenção de que já passou da hora de acordar.
E se eu puder ajudar nesse processo, estou à disposição e o faria de muito bom grado! Falando sério, pode entrar em contato!
Aqui, o link do site com o documentário O Silêncio dos Homens com todas as informações sobre como a pesquisa foi realizada e quem está por trás dessa realização:
https://papodehomem.com.br/o-silencio-dos-homens-documentario-completo/
Aqui o documentário completo:
O livro citado neste post é de Anthony Giddens e chama-se A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas. A referência completa está logo abaixo.
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
GIDDENS, A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas. São Paulo: Editora Unesp, 1992.
Bruna Vasquez é Cientista Social e Pedagoga. Gosta de Drag Music a Heavy Metal, de documentário a série absurda. Anda lendo o que tem na estante de casa e sua mais nova encanação são os estudos de gênero e feministas.


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